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quarta-feira, 11 de março de 2009

O extra-corpo que não saiu de mim

Ontem ganhei ingressos para visitar a mundialmente aclamada exposição Corpo Humano Real e Fascinante. O site oficial não funciona, por isso estou colocando o link para o site da mostra no Rio, de onde tirei algumas das informações que relato abaixo.
A concepção dessa mostra polêmica é do médico norte-americano (mucho-louco) Roy Glover, que resolveu oferecer um tom didático ao trabalho de "dissecação artística" que pode ser acompanhado pelos visitantes. Segundo o site da mostra no Rio, para montagem da exposição foram trabalhados 16 corpos e 255 órgãos verdadeiros que revelam além da fascinante anatomia humana, o cuidado e a minúcia dos cortes precisos e das montagens criativas feitas pelo médico-artista.

Segundo o site, todos os corpos e órgãos exibidos são de pessoas que tiveram morte natural, que optaram por participar de um programa de doação de seus próprios corpos em benefício da ciência e da educação, realizado pela República Popular da China. A iniciativa fornece material anatômico para comunidades médicas e científicas, para fins educacionais e de pesquisa, não só em solo chinês - onde estão os maiores especialistas na dissecação de corpos - como também no exterior. 

Essas informações tornam a mostra ainda mais interessante, mas o que realmente me pegou nessa história toda foi a sensação de estar em um ambiente expositivo rodeada de cadáveres. Cadáveres expostos como obras de arte, cadáveres que por vezes me faziam duvidar ou até esquecer da sua condição morta, pois pelo tratamento que receberam, pareciam réplicas de seres humanos em borracha. E que por outras vezes me faziam pensar na sua real existência, naquelas pessoas que um dia tiveram um espírito conectado àqueles corpos um dia vivos, com unhas, pelos, poros e pele a vista.

Vez ou outra eu ouvia um gemido. Gemidos de espanto, nojo, ou surpresa vindos de pessoas vivas a minha volta, que como eu, esqueciam por certos momentos de tentar pensar na condição não-viva daquelas ex-pessoas e se concentravam nas informações mais técnicas. Impossível não pensar "e se fosse eu aqui". Impossível não pensar no processo de produção disso, não pensar no extra-corpo. Quem foram essas pessoas, como acabaram suas vidas, porque aceitaram essa proposta bizarra? 

Vale reservar uma tarde ou uma noite para visitar a mostra. Algumas fichas acabam caindo. A gente se enxerga por dentro em uma verdadeira aula de anatomia e percebe que é muito mais forte do que imagina, se cuidar do corpo. Mas pode ser muito frágil também se descuidar da alimentação, se tiver uma vida turbulenta, fumar, beber descontroladamente - vai lá ver o pulmão do fumante e o fígado com cirrose...

Então pra mim que gosto de tirar de cada experiência uma lição, a que ficou dessa visita foi que o nosso corpo é uma verdadeira locomotiva e que cada pedacinho dele é lindo e se conecta com os outros para que essa máquina possa andar. Tudo aqui tem uma função. Então me parece que cabe a nós uma certa colaboração para facilitar os processos.

Fora isso eu percebi que certas pessoas tem uma facilidade imensa de separar as coisas. Separar, por exemplo, o corpo, da alma. Esquecer ou não se importar com o passado daqueles corpos, com a energia que um dia foi canalizada por eles. Eu não. Eu tentei e não consegui parar de pensar nas "pessoas", naquelas pessoas que habitavam aqueles corpos. Para mim era ali que morava o verdadeiro fascínio, o mistério, a pergunta que não quis calar.

2 comentários:

Lua disse...

Minha flore

queria muito ter ido nessa exposição aqui em London! Deve ser simplesmente demais esse olhar pra dentro..que faz a gente pensar tanta coisa né!

besitos de um coração pulsante

Ivan Livindo disse...

Essa exposição está aqui em Porto Alegre,tem muita gente indo ver, já me perguntaram se não iria ver? Respondo já estudei anatomia humana em cadáveres, foi muito útil. Mas estudar anatomia com necessário ao exercício da profissão é uma coisa. Outra é contemplar corpos mutilados como obra de arte é outra coisa. Pergunto qual é o argumento ético para essa exposição? A resposta que tenho é que num mundo onde tudo é transformado em mercadoria, cadáveres também são! Penso que no cotidiano nossos corpos estão sendo explorados e vendidos (nossa imagem, nosso suor, nossos órgãos, etc.) Essas pessoas mesmo depois de mortas estão sendo vendidas, elas continuam gerando riquezas para seus senhores... Não basta nos venderem bugigangas produzidas por crianças chinesas. Agora estão estão vendendo imagens de cadáveres chineses. Penso na legitimidade ética da origem dessa ex-pessoas..........